sábado, 27 de dezembro de 2008

Qual Nome é o Nome de Deus?

Este é o nono de uma série de artigos sobre as ofensas que devem ser evitadas quando se deseja progredir espiritualmente através do cantar dos nomes de Deus. Este artigo discute o que é listado no Padma Purana (Brahma Khanda 25.16) como a segunda ofensa ao cantar do santo nome: shivasya shri-vishnor ya iha guna-namadi-sakalam /dhiya bhinnam pashyet sa khalu hari-namahita-karah.
Whose Name is God's Name?
por Urmila Devi Dasi (ACBSP)

Deus tem inúmeros nomes, mas isso quer dizer que todos os nomes são nomes de Deus?

Os devotos da ISKCON estão familiarizados com esta tradução de Srila Prabhupada: “Considerar que os nomes dos semideus, tais como o Senhor Siva ou o Senhor Brahma, estão à altura ou são independentes do nome do Senhor Visnu”. Prabhupada, em diversos de seus livros, explicou o significado deste verso. Para auxiliar a nossa compreensão de tais explicações, aqui está uma tradução palavra-por-palavra do verso:

Shivasya-o nome do Senhor Siva; shri-vishnor-Senhor Vishnu; yah-quem; iha-neste mundo material; guna-qualidades; nama-nome; adi-sakalam-tudo; dhiya-com a noção; bhinnam-diferença; pashyet-talvez veja; sah-ele; khalu-de fato; hari-nama—o santo nome do Senhor; ahita-karah-inauspicioso ou blasfemo

Serão discutidas quatro lições acerca deste verso que podem nos ajudar a evitar essa ofensa ao nome do Senhor. A primeira lição é que todos os nomes de Deus são igualmente sagrados. A segunda é que, embora todos os nomes de Deus sejam idênticos a Ele, eles revelam diferentes humores no que tange a relação do devoto com o Senhor. A terceira é que nomes que se referem a outros seres que não Deus, mesmo semideuses (devas), não são iguais ao nome de Deus. E a quarta é sobre a relação entre Siva e Krsna.

1. Todos os nomes de Deus são igualmente sagrados

Srila Prabhupada escreve: “A segunda ofensa é ver os santos nomes do Senhor em termos de distinções mundanas. O Senhor é o proprietário de todos os universos e, portanto, Ele talvez seja conhecido em diferentes lugares por diferentes nomes, mas esses nomes, de forma alguma, não qualificam Deus plenamente. Qualquer nome atribuído ao Senhor Supremo é tão sagrado quanto qualquer outro, porque todos eles se referem ao Senhor. Tais nomes sagrados são tão poderosos quanto o Senhor, e não há nada que impeça alguém, em nenhuma parte da criação, de cantar e glorificar o Senhor pelo nome que Ele é conhecido naquele determinado local. Eles são todos auspiciosos, e não se deve fazer distinção entre os nomes do Senhor como se faz com mercadorias em uma prateleira” (Srimad-Bhagavatam 2.1.11, Significado).

Muito sofrimento, mesmo na forma de tortura e guerra, foi promovido por discussões acerca do nome do Senhor Supremo. Se você não gosta de como eu chamo Deus, você talvez me chame de herege. Mas é razoável entender que Deus, que criou e possui tudo, tem inúmeros nomes. Mesmo nós, pessoas comuns, temos muitos nomes, como nome legal, apelido entre amigos, apelido íntimo e títulos. Às vezes, o que parece ser vários nomes para Deus é apenas o mesmo termo em diferentes línguas, como nomes que significam “o Provedor”, “o Mantenedor”, “o Curador” ou “o Criador”. Seguidores das escrituras Védicas cantam uma longa canção com mil nomes de Visnu em Sânscrito, e outros sistemas religiosos ensinam noventa e nove nomes, quinze nomes e assim por diante, de acordo com sua língua e compreensão.

Se um devoto de Deus, que O chama através de qualquer um de Seus santos nomes, discrimina de forma mundana Seus outros nomes, o nome é ofendido - pois Deus está plenamente presente em todos os Seus nomes. Ele acaba por se afastar de tal pessoa reducionista que busca se engrandecer a custo de diminuir outros.

2. O nome de Krsna é o próprio Krsna, pleno de variedade espiritual

“Neste mundo”, Srila Prabhupada escreve, “o santo nome de Visnu é todo-auspicioso. O nome, a forma, as qualidades e os passatempos de Visnu são todos transcendentais, perfazendo um conhecimento absoluto. Assim, se alguém tenta separar a Personalidade Absoluta do Supremo de Seu santo nome ou de Suas qualidades, forma e passatempos transcendentais, pensando que são materiais, isso é ofensivo [...] Essa é a segunda ofensa aos pés de lótus do santo nome do Senhor” (Caitanya Caritamrta, Adi-lila 8.24, Significado).

Primeiro aprendemos a respeitar igualmente todos os nomes de Deus. Agora aprendemos a respeitar o nome de Krsna como sendo absolutamente igual a Ele. Não há nenhuma hierarquia mundana para os diferentes nomes de Deus. Deus é um, e Seus nomes também são um. Não há mais de um Deus. Ainda assim, como o Senhor tem diversas encarnações e expansões, Seus inumeráveis nomes apresentam diferentes humores e doçuras espirituais. Alguns nomes de Krsna, por exemplo, são mais íntimos do que outros, assim como “meu bem” é uma forma mais íntima de tratar alguém do que “Meritíssimo” – muito embora possam se referir a mesma pessoa.

Nomes como “o Criador”, “o Provedor” e outros, têm relação com o papel que Deus desempenha em relação com a criação material ou com nossas vidas aqui. Assim como “juiz” e “Meritíssimo”, eles dizem sobre o “trabalho” de Deus. Tendo como foco a postura de Krsna perante nossos interesses, esses nomes tendem a ser centrados no homem.

Outros nomes de Deus são referentes a Seus passatempos em Sua morada espiritual. Embora estes nomes também indiquem a relação de Krsna com outros, esses “outros” são Seus devotos puros, não almas rebeladas.

Infelizmente, a maioria das tradições espirituais e religiosas do mundo conhece apenas os nomes de Deus referentes à criação material. Há pouco conhecimento sobre a vida pessoal de Krsna em Seu reino pessoal, ou sobre Seus nomes lá. Quando tal conhecimento existe, não é, de maneira geral, tratado como parte essencial dos ensinamentos e práticas. Em contraste, escolas Vaisnavas, especialmente o Vaisnavismo Gaudiya (que inclui o movimento Hare Krsna), provêm a seus membros ricas e detalhadas informações acerca dos devotos, atividades, nomes e morada de Krsna.

Srila Prabhupada explica que o nome Krsna é o nome supremo porque significa “o todo atrativo”. Ele inclui todos os aspectos do Senhor e destaca a opulência e a doçura das qualidades de Deus. Porque Krsna é a Personalidade de Deus original, todos os demais nomes de Deus estão incluídos em Seu nome.

Os devotos de Krsna distribuem Seu nome porque querem envolver outros na doçura divina que transpassa a meditação da opulência majestosa do Senhor. Nomes que expressam as funções de Deus neste mundo dão menos do que a satisfação plena que a alma anseia. E o Senhor sente muito mais prazer quando se dirigem a Ele em relação com Seus queridos devotos santos do que através de nomes que glorificam Seu papel neste mundo.

Assim como aqueles que conhecem apenas as atividades e nomes de Deus relacionados ao mundo material não devem rejeitar os demais nomes, da mesma forma, aqueles têm a fortuna de conhecer os nomes íntimos de Krsna não devem pensar que o conhecimento superior faz do conhecedor superior. Ao contrário, com humildade e visão equânime, aqueles que cantam e recitam mantras como o Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare, Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare devem demonstrar todo o respeito por aqueles absortos apenas na compreensão secundária. Assim daremos prazer ao santo nome.

Mesmo dentro do reino de Krsna, há variedade em termos de níveis de intimidade com Krsna. Mas tal variedade não recebe os atributos de “superior” e “inferior” como no mundo material. Uma pessoa que pensa que determinado nome é inferior porque é associado a uma atividade de menor intimidade do Senhor faz uma distinção mundana. E se uma pessoa denigre um devoto que adora Deus por um nome associado a Sua realeza, a ofensa é ainda mais grave.

Determinar se um nome de Deus em particular é embebido no humor de reverência ou no humor de intimidade não é algo muito simples, diga-se de passagem. A diferença entre nomes íntimos e nomes reverenciais pode estar mais no humor e compreensão daqueles que os pronunciam do que na sua definição literal. Mesmo as mais íntimas devotas de Krsna, Suas namoradas vaqueirinhas, às vezes chamam Krsna de Acyuta (Infalível), Vishabha (a Pessoa Mais Elevada) ou Natha (Senhor).

A distinção entre as várias formas de Deus e seus respectivos nomes não se baseia em potência, mas em relacionamentos. Assim, para manter determinados relacionamentos, algumas formas e nomes de expansões plenárias de Krsna nunca exibem certas qualidades. Cada tipo de relacionamento com o Senhor é glorioso. Quando Krsna apareceu como Seu próprio devoto, como Caitanya Mahaprabhu, Ele encorajou a todos que se focassem em Deus em Sua forma original, plena de doçura e de todos os relacionamentos - Krsna. Quando Ele se encontrava com pessoas plenamente devotadas a formas de Krsna como Ramacandra ou Narayana, todavia, Ele glorificava o apego e amor dessas pessoas por Deus.

Embora os nomes descritivos de Deus sejam inumeráveis, Ele não “tem” um nome no sentido de ter uma denominação arbitrária, temporária e diferente dEle. Uma alma condicionada é diferente de sua mente, de seu corpo e de seu nome. Assim, quando chamo o nome de minha amiga, olho para sua foto ou penso em suas qualidades, não tenho contato direto com ela. Mas Krsna, sendo absoluto, é idêntico a seus nomes, forma e qualidades. Contato com qualquer um deles é contato direto com Ele. Enquanto que há unidade e diferença simultâneas entre o Senhor e Suas energias, há apenas unidade entre Ele e Seus atributos pessoais, dentre os quais se inclui Seu nome. Dizer e ouvir o nome de Krsna com amor puro é estar plenamente em Sua presença. Essa unidade entre o Senhor e Seu nome é válida para todos os Seus nomes, sejam em relação à criação ou ao reino espiritual.

3. Os nomes de Krsna e os nomes de outros seres, como os semideuses

Srila Prabhupada escreve: “Considerar que os nomes de semideuses, como o Senhor Siva ou o Senhor Brahma, estão à altura ou são independentes do nome do Senhor Visnu. [...] Se alguém acha que pode cantar ‘Kali! Kali!’ ou ‘Durga! Durga!’, e que isto é o mesmo que cantar Hare Krsna, esta é a maior das ofensas” (O Néctar da Devoção, Capítulo 8).

A terceira lição para se evitar a segunda ofensa do Padma Purana se refere à distinção entre os nomes de Deus e os nomes de outros. Enquanto respeitamos todos os nomes de Krsna, precisamos também lembrar que nem todo nome se refere a Ele. Por exemplo, muitos nomes do Senhor Supremo, como “o Testemunhador”, podem facilmente se referir a outra pessoa que não Deus. Em um tribunal, há muitas pessoas comuns que podem ser chamadas de “testemunhadoras”. Assim, se pensarmos que qualquer testemunhador é Deus, ofendemos o nome.

De forma similar, alguns seres poderosos, embora servos de Deus, têm nomes que também podem ser usados para se referir a Ele. Embora Krsna em Sua onipotência e onipresença possa controlar e manter tudo sozinho, por seu amor Ele ocupa almas puras ou avançadas em Seu serviço. Os termos sânscritos para tais seres são deva e sura. A palavra inglesa que Prabhupada usou para se referir a essa classe de seres foi “semideuses”. Eles são entidades vivas, almas como eu e você e todas as demais formas de vida. Tendo escolhido viver em bondade e pureza, essas almas recebem corpos muito mais belos, poderosos e sutis do que as nossas formas terrestres. Toda alma tem o potencial de transmigrar para a forma de um deva, ou de cair da vida de deva para a forma humana ou inferior.

Os devas principais têm tanto títulos quanto nomes. O título do deva dirigente administrativo, por exemplo, é "Indra", que significa "dirigente máximo". O atual Indra se chama Purandara. Às vezes, um nome ou título pode se referir tanto a um deva quanto a Krsna. No último mantra do Isopanisad, uma de 108 escrituras dedicadas ao conhecimento transcendental, o Senhor Supremo é chamado de Agni, que também é o título do deva do fogo. Quando referente a Deus, Agni significa aquele que é tão poderoso quanto o fogo ou aquele que é a origem do fogo. O fato de Krsna poder ser chamado de Agni não significa que possamos reverenciar ou adorar o deus do fogo Agni como supremo.

Às vezes, dizendo-se seguidores das escrituras Védicas, pessoas adoram devas, especialmente Siva, Durga ou Ganesa, como se eles fossem encarnações plenárias de Krsna. Como descrito anteriormente, Krsna não se manifesta plenamente em todas as Suas encarnações e expansões. Pode ser confuso a princípio, portanto, aprender que Rama é a Personalidade de Deus, mas que Ganesa, por exemplo, não é.

Como saber quem é Deus e quem é um deva? Quando um nome como Agni ou Surya se refere a um deva e quando se refere a Deus? Quando alguém está chamando pelo mesmo Deus por um nome diferente, e quando alguém está chamando por algo diferente de Deus? Para responder a essas três perguntas e outras similares, é preciso buscar referência nas escrituras sob a guia de um guru autêntico, seguindo o exemplo das pessoas santas.

Os devas são devotos de Krsna em diferentes níveis de realização e aspiração. Como de toda entidade viva no mundo material, seus nomes são designações temporárias, diferentes deles. Nós automaticamente adoramos e comprazemos todos eles quando cantamos o nome de Krsna e adoramos Krsna, assim como satisfazemos todas as nossas obrigações para o governo quando pagamos nossos impostos para o banco central. Se nós nos aproximamos dos devas diretamente – o que não é de maneira geral necessário, nem mesmo recomendado – devemos fazê-lo unicamente para mostrarmos respeito por eles como agentes de Deus ou para pedir que nos ajudem a servir o Senhor Supremo. A melhor maneira de se adorar os devas é com comida e artigos que foram primeiramente oferecidos a Krsna. Embora devamos respeitar as escrituras e tradições que encorajam a adoração a devas porque eles gradualmente elevam seus adoradores, aqueles que buscam pelo amor puro por Deus devem adorar Krsna em todo ritual que sugira adorar algum deva.

4. A Posição de Siva

Em seu comentário ao Brhad-Bhagavatamrta (1.2.86) de Sanatana Gosvami, Gopiparanadhana Dasa, discípulo de Srila Prabhupada, baseando-se no próprio comentário de Sanatana Gosvami, escreve: “O Padma Purana traz uma lista de dez ofensas ao cantar dos nomes do Senhor Visnu. Ali está declaro: ‘Aquele que vê diferença entre os nomes e qualidades de Siva e os nomes e qualidades de Visnu é antagonista ao hari-nama’. O Senhor Visnu não tolera ofensas contra o Senhor Siva, porque o Senhor Siva é a mais poderosa encarnação dotada de poder do Senhor Visnu. O Senhor Siva é especialmente dotado com o poder de distribuir no mundo material o elevado gosto do serviço devocional puro”.

O Senhor Siva é absoluto entre os devas. Ele é uma encarnação de Krsna, mas ele é, de alguma maneira, diferente de Krsna, assim como o iogurte é leite mas não é leite. Ele possui qualidade acima daquelas de qualquer outra entidade viva e tem eterno domínio sobre a matéria. Pensar, todavia, que o nome e a personalidade de Siva são idênticos ao nome e personalidade de Krsna é ofensivo. E também é ofensivo vê-los como diferentes.

A maneira perfeita de compatibilizar a posição de Siva e de Krsna é adorar Siva como uma encarnação modificada de Krsna que considera a si mesmo como devoto e servo de Krsna. Em Sua encarnação como Siva, Krsna age como o tempo que a tudo destrói e como o pai de todas as entidades vivas. Assim como Krsna, ele é independente da matéria; como Siva, Ele tem como Sua consorte a energia material personificada. Quando adoramos Krsna de forma apropriada, Siva está incluído e satisfeito. Mas se adoramos Siva de outra forma que não como um Vaisnava, um devoto de Krsna, então, nem o Senhor Siva ficará plenamente satisfeito, nem Krsna terá sido devidamente reverenciado.

Conclusão

Há muitos nomes de Deus e muitos caminhos que conduzem a Ele, assim como há muitos caminhos e nomes que levam a outros lugares. Várias companhias aéreas e rotas podem nos levar a Tóquio. Se durante nossa viagem para Tóquio, pensamos estar no único avião que vai para lá, ou mesmo na única linha aérea, intoxicamos a nós mesmos com o álcool do orgulho. Claro que nem toda empresa aérea tem vôos para o oriente, tampouco todo avião que está cruzando os ares neste momento está indo em direção a Tóquio, ou talvez nem sequer esteja indo para o Japão. Dentre as empresas aéreas que de fato vão até Tóquio, algumas têm rotas mais diretas, melhores serviços ou menores preços.

Aquele que cuidadosamente estuda a ciência de bhakti, a ciência do serviço devocional a Krsna, que inclui a prática do cantar de Hare Krsna, irá rapidamente entender que esta rota do amor por Deus é direta. O vôo inclui amplo serviço de bordo, e o preço é apenas um pouco de desejo sincero. Para que nosso cantar de bhakti seja efetivo, devemos distinguir entre adoração ao Absoluto e ao relativo, enquanto honramos todas as formas e nomes do Absoluto. Então, nosso cantar de Hare Krsna irá, sem demora, dar-nos a realização de nosso eu e de nossa doce relação com o único, o todo atrativo Senhor Sri Krsna.

Tradução por Bhagavan dasa (DvS) e revisão por Bhakti Flávia Reis (DvS)

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